sexta-feira, 4 de junho de 2010

Sobrevivência

Geraldo estava esparramado no sofá de casa brincando de trocar canais. Parou para ver o canal de história que estava descrevendo os primórdios da Humanidade.
-“ Em eras antigas, o Homem dependia única e exclusivamente de si mesmo para sobreviver. Levantava antes do pôr do sol e ia à caça. Para conseguir seu intento, passava horas e horas na mesma posição e em lugares desconfortáveis e distantes de onde habitava. Assim que localizava seu alvo, partia em plena velocidade ao seu encontro, muitas vezes armado apenas com seus próprios punhos. “
A narração associada às imagens prendeu a atenção de Geraldo e continuava em um ritmo frenético.
-“ Assim que o Homem conseguia caçar sua presa, tinha mais obstáculos pela frente. Tinha que defendê-la de outros predadores e também levá-la de volta ao seu bando. Isso implicava em ter que correr, saltar e agarrar-se em locais altos e perigosos ; tudo isso com o peso da caça nas costas!
-“Enfim, nossos ancestrais eram verdadeiros atletas, mesmo em se tratando de buscar alimento para sua sobrevivência!”
Geraldo desligou a televisão e disse para si mesmo:
-” Eis aí a motivação que me faltava! Preciso mostrar a todos que também posso mudar!
Dizendo isso, foi ao quarto, trocou de roupa, pegou a chave do carro e foi ao supermercado comprar um pacote de batatas fritas e refrigerantes.

FIM

O Herói

Adalberto é um típico carioca e brasileiro. Estatura média, salário médio, morava em um apartamento mediano, seu time estava no meio da tabela, era enfim, um classe média.
Naquele domingo foi à praia com sua família. A mulher, sempre prevenida, levou cadeira, guarda-sol protetor solar, bronzeador a revista semanal, o boné e o inseparável óculos escuro.
A filha, de 15 anos, chamava a atenção dos marmanjos, que logo em seguida perdiam o interesse quando viam a cara do Adalberto.
O filho mais novo, de seis anos, era só alegria, com o baldinho de areia na mão.
Devidamente instalados, eis que ela aparece!
Adalberto não sabia se arrumava o guarda-sol, se chamava o filho ou tentava fingir para a mulher, que não desgrudava os olhos dele, que não estava olhando para a recém-chegada.
Ela não andava, desfilava pelas areias de Copacabana. Os surfistas, que estavam conversando, animadamente, sobre as ondas que iriam pegar , calaram-se.
Até o moço do côco ficou quieto. Todos os movimentos dela pareciam em câmera lenta.
Ela arrumou o biquíni e deslizou em direção ao mar. Tudo não levou mais do que cinco minutos, mas para o Adalberto, foi uma Eternidade.
Ele estava totalmente absorto em seus pensamentos, que não escutou a mulher, pela sexta vez, pedir para passar bronzeador nas costas.
- Ah,sim, claro, claro, já vou comprar a água...
-Água? Que água, Adalberto? Eu, hein?
Após procurá-la no mar, Adalberto teve um momento de surpresa!
-Não é possível! Aquela deusa está acenando para mim! Será que ela não viu que eu sou casado?
Mas o momento, de surpresa, passou para a realidade.
-Ela está se afogando!!
Adalberto saiu em disparada, atropelando quem ou o que estivesse na sua frente. Pulou na água sem pensar e conseguiu retirá-la do mar, que já a havia puxado alguns metros da praia.
Deitou-a na areia e começou a fazer a respiração boca-a boca que aprendera no colégio.
Logo se formou uma multidão em volta dos dois. A mulher, a filha e o filho, com muito esforço, conseguiram chegar até o marido.
O que ouviam não deixava dúvidas!
-Ele a salvou!
-Nossa, ele mergulhou e a trouxe de volta nos braços!
-Deve ser uma salva-vidas profissional!
A mulher não cabia em si de satisfação.
-Este é o homem com quem eu me deito todas as noites! , pensou, com um sorriso nos lábios.
-Meu pai, quem diria? Agora vou virar assunto no colégio, pensou a filha.
O único que disse alguma coisa foi o filho:
-Meu pai é um herói!
Na segunda-feira, todos o reconheciam na vizinhança, mas ninguém era capaz de explicar se aquele sorriso no rosto era pelo ato de heroísmo ou pela respiração boca-a-boca.
FIM